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quarta-feira, 23 de julho de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO




Sobre o Acordo Ortográfico, que já foi promulgado pelo Presidente da República, Cavaco Silva, escreve Rui Tavares no Público:
Nem se vai dar por isso

Agora que o Acordo Ortográfico está ratificado, os seus adversários fazem dois tipos de profecias: que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade. Não acredito em nenhuma das duas hipóteses e vou explicar porquê.
Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram.Agora que o Acordo Ortográfico está ratificado, os seus adversários fazem dois tipos de profecias: que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade. Não acredito em nenhuma das duas hipóteses e vou explicar porquê.
Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram. Eu escrevo e continuarei a escrever da forma como quiser sem punição do Estado (na verdade, muitas vezes são os poderes privados que interferem: eu escrevo sempre "estado" com minúscula, e tanto este jornal como a minha editora costumam alterar para maiúscula). Mas reconheço legitimidade ao Estado [maiúscula introduzida pelo editor para confirmar declaração anterior] para escolher uma ortografia para os seus actos escritos, nomeadamente para que as leis estejam escritas de forma homogénea. O primeiro objecto do acordo será, nesse sentido, o Diário da República. O resto da sociedade só segue se quiser.
Dito isto, é natural que o acordo vá progressivamente entrando nos hábitos de escrita dos portugueses e outros lusófonos, e isto por uma razão que neste momento talvez provoque algum escândalo. Ele, de facto, simplifica-nos a vida.

No Brasil irão ocorrer duas mudanças fundamentais. A primeira é cair o trema em palavras como "seqüência" ou "lingüiça". É até compreensível a resistência a esta mudança. Ela facilita no momento da escrita, mas pode dificultar a leitura. Algumas pessoas, dizem os opositores, podem passar a dizer "sekencia", como se aquele "u" não fosse para pronunciar. Mas nós portugueses, que não usamos o trema, sabemos que esta confusão é rara: que me lembre, só na palavra "sequestro" há quem leia "secuestro" ou "sekestro". E não só esta confusão é rara como não vem daí mal ao mundo, no sentido em que ninguém deixa de se compreender por ela.
A segunda é cair o acento que os brasileiros usam em "idéia" ou "assembléia". Li uma entrevista de um poeta brasileiro (à revista Língua Portuguesa, que se edita naquele país) protestando contra o que neste caso seria uma "vitória" da pronúncia portuguesa. Segundo ele, os portugueses pronunciariam "idêia" e "assemblêia" com o "e" fechado, e a queda do acento consagraria isto, que nós sabemos que é um disparate. Os portugueses pronunciam o "e" aberto em ambas as palavras.
Estas misturadas dos oponentes do lado de lá do Atlântico ajudam-nos a entender melhor as misturadas que se fazem do lado de cá.
Em Portugal, a grande mudança é a queda das consoantes mudas. Já se falou muito sobre as suas desvantagens. Vejamos agora o outro lado da moeda. Frequentemente vejo escrito "contracto" (no sentido de "acordo" e não de "contraído", claro) com um "c" a mais. E não é raro encontrar a forma "conductor" ou até "traducção". Isso acontece porque, como as consoantes mudas não se lêem, acabamos por inventá-las no momento da escrita em palavras onde elas "poderiam" estar.
A partir de agora passa a haver uma regra simples. No momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele "c"? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo (ou, em alternativa: se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo). Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. E ela é, por si só, a grande mudança que o cidadão comum vai ter de fazer. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás.
Sempre o disse: esta reforma ortográfica é relativamente modesta (quando comparada, por exemplo, com a que a língua alemã fez recentemente). Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

AINDA O ACORDO ORTOGRÁFICO


Lido no Público de Hoje:

Uma estratégia simples
Rui Tavares
(...)
Vasco Graça Moura, em novo texto contra o acordo ortográfico de novo aprovado pelo Parlamento português, alerta para o risco de estarmos perante \u201Cuma Ota linguística\u201D. É uma comparação absurda mas curiosa: a referência à localização abortada para um novo aeroporto na região de Lisboa vai direitinha para o Presidente da República, que teve um papel crucial nesse processo, e em quem os opositores do acordo ortográfico depositam agora as últimas esperanças.
Se a ideia é dar a entender que o acordo ortográfico seria um erro estratégico como presumivelmente a má localização de um aeroporto, haveria então algo a ganhar em que o Presidente Aníbal Cavaco Silva vetasse agora um acordo ortográfico (que foi em primeiro lugar assinado por um primeiro-ministro cujo nome era: Aníbal Cavaco Silva).
Ao contrário da inconstância e amadorismo que daria aos opositores do acordo esta alegria de última hora, há uma razão para que a estratégia portuguesa em relação ao Brasil tenha sido sempre a mesma. Porque é a estratégia correcta, e tão simples que se resume numa frase: consiste em envolver o Brasil num esforço colectivo de promoção da língua, em que cada país lusófono conta institucionalmente o mesmo.
E tem ainda isto a seu favor: é realmente uma estratégia. Como tal, não se detém no acordo ortográfico. O exemplo das universidades com que comecei demonstra que há muito a fazer. Desde logo, abrir as nossas universidades (reconhecendo por exemplo os graus secundários brasileiros) e usando o prestígio que algumas lá têm, como Coimbra, e os diplomas europeus que elas podem conferir. Vem aí a presidência portuguesa da CPLP, e é preciso pensar o futuro pós-acordo.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A GEOLINGUÍSTICA DO PORTUGUÊS


Neste mapa pode ver-se até que ponto a Língua Portuguesa é uma língua global - a língua que foi a base da primeira globalização que o mundo conheceu - e de que como ela é um instrumento de diálogo de culturas dentro e fora do espaço da lusofonia. E só uma visão paroquial poderia querer impedir os instrumentos para a sua afirmação internacional - mantendo um fenómeno na escrita - a síncope (queda de uma letra no interior de uma palavra), quando ela já não era articulada. Ou seja, do ponto de vista científico era uma aberração, visto que os fenómenos linguísticos dizem respeito à fonética e devem seguir a tradição que vem do Latim, onde nenhuma letra deixava de ser lida, e nenhuma letra não lida era escrita.

ACORDO ORTOGRÁFICO - CONHEÇA O ACORDO ASSINADO PELOS PAÍSES DA CPLP


Para poder discutir com bases, leia a versão do acordo, incluindo as regras e a ortografia aprovada, clique neste sítio.

ACORDO ORTOGRÁFICO APROVADO NO PARLAMENTO


A aprovação do 2º. protocolo sobre o Acordo Ortográfico hoje é noticiada no Globo em linha na inter-rede. Ver aqui.

Pode assitir à discussão no parlamento neste sítio.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO - In extremis: ortografia, deputados e bom senso, por João Andrade Peres



Público de hoje:

In extremis: ortografia, deputados e bom senso
João Andrade Peres
Deixar ao livre-arbítrio de cada cidadão a escolha da grafia é completamente absurdoDeverá ser amanhã votada na Assembleia da República uma proposta de resolução aprovada pelo Governo que poderá levar o Acordo Ortográfico de 1990 a ter força de lei. Apesar de não ser o Acordo que vai ser apreciado, mas apenas os mecanismos legais da sua entrada em vigor nos países signatários, tem-se assistido a um aceso debate sobre os seus meandros técnicos, possivelmente porque, após a derrota da péssima versão de 1986, a maioria julgou o assunto encerrado e só recentemente, quando um ministro falou de ratificação para breve, voltou a avaliar o que estava em jogo.
Confesso que abomino ler em ortografia anterior à reforma de 1911, com palavras como "archaico", "philosophia", "accepção", "construcção", "auctor", "succeder", "alumno", "escriptorio", "comprehender", "elle" ou "lyceo". Fico sempre grato à lei da República que livrou a língua portuguesa do que hoje sinto como ganga pesada e inútil, resultante da etimologia e da irregular grafia portuguesa anterior ao século XX. Sem a mudança, talvez convivesse bem com aqueles "horrores", mas, educado depois dela, só posso achar a nova escrita mais simples (mais "limpa" e "leve", por isso mais bela) e, num plano técnico, mais orgânica e de mais fácil aprendizagem. Nada tenho, pois, a opor a reformas ortográficas que visem a simplicidade, a clareza e a organicidade da escrita. O Acordo em causa, com coisas boas e outras nem tanto, não serve sempre bem estes desideratos. Todavia, neste momento, mais do que discutir deficiências linguísticas, julgo que há que admitir que os decisores políticos acharão que um Estado de palavra não está em condições de denunciar um Acordo firmado há dezassete anos e que, assim sendo, o que urge é limitar ao máximo os efeitos negativos da sua aplicação.
O Acordo tem o defeito gravíssimo de admitir grafias facultativas para a língua portuguesa em toda a sua extensão, sem quaisquer restrições além da existência (onde quer que seja) de uma "pronúncia culta" que as sancione. Segundo a sua letra, passam a ser legítimas onde quer que se fale português todas as variantes gráficas dos seguintes pares (entre muitos outros): fenómeno/fenômeno, aritmética/arimética, amnistia/anistia, amígdalas/amídalas, súbdito/súdito, visitamos (ontem)/visitámos (ontem), recepção/receção, espectadores/espetadores, intersecção (de conjuntos)/interseção (de conjuntos), (o) cacto (secou)/(o) cato (secou), (o Tejo) desagua (em Lisboa)/(o Tejo) deságua (em Lisboa), (a Polícia) averigua (o crime)/(a Polícia) averígua (o crime). Bastam estes exemplos para se perceber o caos em que, se corroborada, a interpretação literal do Acordo, que tem sido assumida pelos seus opositores e não refutada pelos defensores, lançaria a língua portuguesa. Custa-me a crer que o entendimento dos autores do documento admita que, em Portugal, dois alunos portugueses (ou brasileiros, no Brasil, etc.) sentados lado a lado ou dois professores em salas contíguas poderiam usar livremente as grafias alternativas. Tal entendimento, deixando, em última análise, ao livre-arbítrio de cada cidadão a escolha da grafia, é a meu ver completamente absurdo, pondo em causa a função da língua escrita como factor de coesão social.
O único entendimento do Acordo que reputo razoável é (usando uma velha distinção do linguista Coseriu) o que toma a língua portuguesa enquanto "sistema", i.e., enquanto totalidade integradora das suas diferentes "normas" (ou "variantes"), incluindo normas gráficas. Nesse plano do sistema, faz sentido (com realismo, tendo em conta organizações internacionais, tratamentos computacionais, etc.) colocar a par e considerar realizações legítimas da língua todas as grafias admissíveis nos diferentes países, passando os vocabulários e dicionários de português a incluir as formas alternativas (como estabelece o Acordo), com uma sobrecarga não muito significativa, comparável à da maioria dos dicionários do inglês, que dão as grafias britânica e americana. Não penso, porém, que viole a letra do Acordo a prática de cada Estado, se assim o entender, seleccionar as alternativas permitidas pelo sistema que serão adoptadas na sua ordem interna, no âmbito limitado do sistema de ensino e da produção oficial de documentos (e, colateralmente, p. ex., da publicação de obras com financiamento público e não destinadas exclusivamente a países com outras opções normativas). Tão simples quanto isto: todas as variantes previstas pelo Acordo são reconhecidas como língua portuguesa, mas em cada Estado, nos domínios de uso referidos, vigora a variante ortográfica que melhor se lhe adapta. Nas instâncias internacionais, qualquer variante poderia ser usada, com regras simples: p. ex., na ONU, se o Brasil for membro do Conselho de Segurança, será usada uma opção brasileira, na UE será a portuguesa, na CPLP será a do país que presidir, e por aí fora.
É imperioso que os deputados, a 15 de Maio, e subsequentemente o Presidente da República usem todas as suas capacidades legais ou o seu magistério de influência para evitar a imensa perturbação que adviria da interpretação corrente do Acordo. Tal só se conseguirá se a sua entrada em vigor ficar condicionada a uma definição inequívoca do seu alcance e modo de aplicação no âmbito nacional. Para este fim, o Governo precisará de nomear de imediato uma comissão de peritos (incluindo, entre outros, linguistas, professores de Português, neuropsicólogos, psicolinguistas e sociólogos, com intervenção das Universidades e não apenas a Academia das Ciências de Lisboa) que fique incumbida de, com base em estudos sérios, fixar os critérios de selecção das opções previstas e acompanhar a delimitação do vocabulário ortográfico parcial da língua portuguesa a adoptar em Portugal nas esferas de uso referidas. A margem de manobra que o Acordo permite é muito grande e, se for seguida esta via, pouco de irremediável estará já feito. É verdade que, com algum risco de alterações indesejáveis na pronúncia, teremos obrigatoriamente de passar a escrever ator, direção e ótimo, mas quem sabe se daqui a umas décadas não virá alguém celebrar, como eu acima, a agradável leveza da escrita portuguesa. E, mesmo que assim não venha a ser, o Brasil bem merece o pequeno sacrifício de umas tantas consoantes mudas. Linguista. Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

quarta-feira, 14 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO - AbruPto continua com "P", por mais confusão que V. Graça Moura queira lançar


ARTIGO SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO NO PÚBLICO

Uma boa decisão
Rui Tavares - 20080514
Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do "p" pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o "p" em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita.Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do "p" pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o "p" em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita.
Aproxima-se um dia decisivo para a questão ortográfica e a confusão, voluntária ou involuntária, é geral. A confusão, acima de tudo, dá jeito. No meio disto, até há quem pense que o que está em discussão é Portugal ratificar ou não o Acordo Ortográfico. Mas não é.
Portugal já ratificou o Acordo Ortográfico. Há mais de 15 anos. Aquilo que na sexta-feira se votará no Parlamento português é uma modificação que se introduziu, entretanto, para permitir a entrada de Timor-Leste e aceitar que o acordo entre em vigor depois de ratificado por três países.
O Brasil, que se tinha atrasado a ratificar o acordo, fê-lo já com esta modificação, tal como Cabo Verde e São Tomé. Lembro-me como, do lado brasileiro, também não faltavam vozes escandalizadas alegando que o acordo era uma cedência aos portugueses.

Durante quase todo este tempo, aliás, o grande receio por parte do Governo português era que esse antilusitanismo levasse a melhor na sociedade brasileira. E tinham razão os nossos políticos e diplomatas: na verdade, não é do interesse português que o maior país da lusofonia fique fora do barco. Sem acordo ortográfico, o mundo acabaria por seguir naturalmente a norma brasileira, considerando o crescente peso demográfico e económico do Brasil. Agora que o Brasil aceitou uma norma comum, e que alguns países africanos já a adoptaram e outros a vão adoptar, seria um enorme erro estratégico fazer com que Portugal ficasse de fora.
O nacionalismo tem vistas curtas. Uma das petições contra o acordo diz que esta situação "fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular". Será possível exagerar mais?
Vejamos a realidade. Um livrinho que contém as alterações do novo acordo e que está à venda por todo o lado tem 30 páginas em letra grande. Lê-se em dez minutos e toda a sua informação caberia facilmente num único cartaz. Há mudanças em ambas as normas, mas são reduzidas e estão longe de ser inaceitáveis. Nós perdemos as consoantes mudas e isso faz-nos uma grande confusão. Os brasileiros perdem o trema, que usam para pronunciar o "u" em lingüiça, e admito que lhes faça grande confusão, mas nós sabemos que se passa bem sem o trema. Noutros casos, teremos duas formas de escrever, o que também não é novidade: afinal, aqui em Portugal já usamos loura e loira, bêbedo e bêbado. Qual é o grande problema?
Há quem clame que o Estado não se deve meter na ortografia e que estamos (de novo) perante uma tentação totalitária. No entanto, usam sem pestanejar uma ortografia determinada pelo Estado, e que já passou pelas reformas de 1911, 1943, 1945, 1971 e 1986, entre outras.
Este sensacionalismo não é amigo de uma boa decisão. Este nacionalismo não é amigo de uma boa decisão. A retórica do "inaceitável" pode impedir-nos de fechar um bom negócio - e que nos convém muito especialmente a nós. Uma boa decisão pede cabeça fria, avaliação dos nossos interesses e visão de longo prazo - esperemos que, na sexta-feira, os deputados demonstrem estas qualidades. Historiador

ACORDO ORTOGRÁFICO - Nota, Raquel Gonçalves

De facto (com c) já li o novo acordo ortográfico. E sei que o facto pode vir a ter dupla grafia. No texto está um jogo de palavras, que serviu na perfeição, como fato, aos meus objectivos. Serviu, por assim dizer, para vestir a minha opinião sobre o assunto.

É óbvio que ao longo dos tempos a nossa língua evoluiu. No Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa estão até palavras como 'bué' e 'trip'. O que não gosto neste acordo ortográfico é a tentativa de normalização, como se as palavras fossem bananas, ou outra fruta normalizada pelas regras da União Europeia.

Os jornais têm responsabilidades. Mas também são espaços de liberdade. E cada um tem direito à sua. Devo lembrar que ainda esta semana um outro jornal de referência, o Expresso, publicou um artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares contra o acordo ortográfico. Outros, com certeza, vão fazê-lo a elogiar o acordo.

Data: 14-05-2008, DN

ACORDO ORTOGRÁFICO - De facto, qual é a questão?, Miguel Luís da Fonseca

Quando Fernando Pessoa disse "A minha Pátria é a Língua Portuguesa", e ""a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida" ainda havia quem escrevesse assim em Portugal: "assumpto, mythologia, litteratura, differença, anno, lyrica, belleza", justamente porque se opunha à reforma ortográfica de 1911 e achava que era mais "bella" a ortografia anterior a essa reforma. Quem quiser seguir Pessoa, que o faça, é legítimo.

E já agora, sem contestar o seu direito à discordância, a articulista Raquel Gonçalves já leu o novo Acordo Ortográfico, nos seus aspectos essenciais, que se limita a concluir, do ponto de vista estrutural e fonético, o acordo de 1945, onde caíram todas as consoantes ("c" e "p") nos casos em que eram invariavelmente mudas nas pronúncias portuguesa e brasileira (adjuncto, adstricto, aqueducto, absorpção, esculptor, práctica...)?. Acredito que sim, que leu. Mas então já sabe. É que, de facto, no novo acordo, pode continuar a usar fato português, terno brasileiro e facto real, passe a redundância.

E o que é realmente impressionante é a forma como se discute alguns assuntos em meios de comunicação social, às vezes sem a necessária argumentação, que neste caso deve incluir a componente científica, com um simples texto opinativo baseado em meros trocadilhos e, sobretudo, muitas vezes, sem o conhecimento e o estudo que estas coisas requerem. E sou a favor. E sou contra. E porque sim. E porque não. O Diário de Notícias sabe a audiência que tem, deve assumir as suas pesadas responsabilidades. O texto publicado ontem sobre o acordo vai no bom sentido. Seria bom que continuasse com maior divulgação do Acordo e com a continuação do debate dos que defendem o novo Acordo e dos que se lhe opõem, com base em argumentos que não podem dispensar a componente científica, além de outros, de que o mero gosto pessoal não pode ser ignorado - porque se trata também disso, de uma questão estética, obviamente, mas está longe de esgotar o problema. (Eu, por exemplo, que sou radicalmente a favor do acordo, por razões essenciais que já aqui expliquei, ainda tenho uma preferência estética por "acto" e até mesmo por "baptizado", mas entendo que não deixará de ser um "ótimo batizado" nem lhe faltará a água benta se lhe cair o "p", permita-se-me também o trocadilho, que, aliás, tanto aprecio, com conta, peso e medida. Pessoa achava também que o "myto" era mais forte que o "mito", mas nem por isso a mitologia se perdeu no nevoeiro sebastianista e pessoano). De contrário, estaremos perante posições meramente enquistadas e subjectivas mas sem discussão do essencial. E, o que é pior, a induzir em erro, por mero desconhecimento daquilo de que se fala, a fazer afirmações temerárias, como aquela de que o "h" inicial desapareceria, já aqui erroneamente dita, numa situação de desconhecimento que não permite o debate com equidade. Daí a necessidade de divulgar o Acordo Ortográfico nas suas componentes essenciais. P.S. - a palavra "húmido" continua a admitir duas grafias, com e sem "h", como já acontecia etimologicamente em Latim.

DN, Data: 14-05-2008

ACORDO ORTOGRÁFICO - De facto, não visto o fato, Raquel Gonçalves, DN


A minha Pátria é a Língua Portuguesa", disse o poeta. E eu, que gosto de poetas e de palavras, não gosto de ver assim a minha pátria amputada, de fato em vez de facto. Presa a um fato alheio que lhe tolda os movimentos, que a deixa presa a uma língua falada por outros, a uma cultura importada, a um sentir que não é o seu, nem o nosso.

Não gosto do novo acordo ortográfico porque, tal como diz Pessoa, sinto que "a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida". Se lhe caem letras, cortadas por acordos políticos, as palavras sangram, e choram, e gritam. Tal como as árvores morrem de pé. Ao vento, na liberdade de todos os escritores e poetas, de todos os que falam, e escrevem. Na liberdade de um país que tem direito a falar uma língua por inteiro. Sem influências impostas à força por gente que sabe muito, mas que não ouve o grito das palavras.

DN, Data: 13-05-2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

PETIÇÃO A FAVOR DO ACORDO ORTOGRÁFICO


Assine aqui a petição a favor do novo Acordo Ortográfico.

Essencial para a divulgação e expansão global da nossa Língua! E para o diálogo de civilizações e culturas, numa nova era, a era da geolinguística!

RAQUEL GONÇALVES, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, DE FATO APERTADO


Quando Fernando Pessoa escreveu isto, escrevia-se assim em Portugal. Quem quiser seguir Pessoa, que o faça.
E já agora, sem contestar o seu direito à discordância, Raquel Gonçalves, já leu o novo Acordo Ortográfico? É que, de facto, no novo acordo, pode continuar a usar fato português, terno brasileiro e facto real, passe a redundância.

sábado, 3 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO: maus argumentos para uma legítima oposição


ACORDO ORTOGRÁFICO: maus argumentos para uma legítima oposição
Ana Isabel Buescu; António Emiliano; António Lobo Xavier; Eduardo Lourenço; Helena Buescu; Jorge Morais Barbosa; José Pacheco Pereira; José da Silva Peneda; Laura Bulger; Luís Fagundes Duarte; Maria Alzira Seixo; Mário Cláudio; Miguel Veiga; Paulo Teixeira Pinto; Raul Miguel Rosado Fernandes; Vasco Graça Moura; Vítor Manuel Aguiar e Silva; Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho; Zita Seabra subscrevem um texto hoje no Público contra o Acordo Ortográfico.
Entre os argumentos apresentados, está este:

“É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes "mudas" - muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.”.

Se o argumento da etimologia é suficiente para não subscrever o acordo, então também é válido para repor a ortografia já não digo antes da reforma de 1911, mas de 1945, pois é o próprio Vasco Graça Moura que escreve no seu último artigo no Diário de Notícias (“Babel e outras confusões”):

“O Acordo de 1945 já elimina as consoantes c e p nos casos em que são invariavelmente mudas nas pronúncias portuguesa e brasileira (adjuncto, adstricto, aqueducto, absorpção, esculptor...)”. A ser coerente, Vasco Graça Moura e os subscritores desencadeariam um movimento para repor as consoantes que eles dizem ser impropriamente chamadas mudas e que desapareceram com o Acordo de 1945. Em nome da etimologia.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

POESIA LYRICA, DIDACTICA, BUCOLICA E DESCRIPTIVA




Anteriormente a 1825 a poesia portugueza n’este periodo, modelou-se pelos modelos gregos e romanos e pelas imitações d’elles nos classicos modernos, tomando-lhes assumptos, pensamentos, fórmas, e até as ficções e linguagem mythologicas. Em 1825, começou a romper as peias convencionaes.
Voltou a ser livre, nacional e do seu tempo, como fora na edade media, de cujas tradições litterarias vem reatar a cadeira quebrada pela Renascença. Ha pois estas differenças entre as poeticas anteriores a 1825 e as posteriores a esse anno.
N’uma ou em mais especies lyrica didactica, bucolica e descriptiva sobressaíram até 1825 vários autores, entre eles Francisco Manoel do Nascimento (1734-1819), adoptou o nome de Filinto Elysio. São conhecidas as suas obras e d’ellas são as melhores as odes heroicas, as anacreonticas e as epistolas. Fez traduções de Chateaubriand, dando o maximo cuidado á belleza do pensamento e tentou fugir dos gallicismos.

(TEXO ESCRITO NA ORTOGRAFIA OFICIAL PORTUGUESA ANTES DA REFORMA ORTOGRÁFICA DE 1911, INCLUINDO OS ACENTOS, QUE NÃO EXISTIAM NAS ESDRUXÚLA. O "à", hoje com acento grave, era então acentuado com acento agudo.) Os apóstolos contra o acordo ortográfico sempre podem recuperar todas aquelas consoantes mudas que caíram e voltar a escrever com a ortografia anterior a 1911.