Lido no Público
António Vilarigues
Qual seria a reacção dos EUA se a Rússia instalasse um sistema ABM em Cuba ou no México?
1. Em reunião realizada no passado dia 3 de Setembro, na cidade de Montreal, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, manifestou o seu apoio a um Quebeque livre. O primeiro-ministro desta província independentista do Canadá, o liberal Jean Charest, agradeceu as palavras do seu homólogo da Rússia. Ambos recordaram, perante centenas de jornalistas de todo o mundo, a célebre frase pronunciada nessa mesma cidade a 24 de Julho de 1967 pelo então Presidente da República da França, Charles de Gaulle: "Vive le Québec libre!".
No decorrer das negociações entre as duas delegações ficou acordado que a Rússia instalaria no Quebeque um sistema antimísseis de longo alcance. O objectivo é proteger os aliados da Rússia na América do Norte e na América Latina contra os mísseis de longo alcance quer do Irão, quer da República Democrática Popular da Coreia (Norte). Foram reforçadas significativamente as ligações políticas, económicas, culturais e militares.
Em simultâneo, o subcomandante Marcos, líder do movimento independentista de Chiapas, no México, era recebido em Moscovo pelo presidente Dmitri Medvedev. Além de ter garantido o apoio às suas pretensões de independência, o subcomandante Marcos obteve a promessa de instalação, nesta província mexicana, de um poderoso radar que se articulará com o sistema antimíssil a instalar no Quebeque. Foram igualmente assinados importantes acordos económicos e militares.
Todos estes líderes políticos reafirmaram que estas decisões não atentam contra os interesses dos Estados Unidos.
Face a estes acontecimentos, George W. Bush convocou de emergência para a próxima segunda-feira, dia 8, uma cimeira com o presidente do México e com o primeiro-ministro do Canadá, respectivamente Felipe Calderón e Stephen Harper.
Em simultâneo, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, apresentou um enérgico protesto dos EUA. Segundo afirmou, estes acordos, nomeadamente na sua parte militar, traduzem-se numa violação descarada e grosseira quer dos tratados SALT (Strategic Arms Limitation Talks) I e II, quer dos acordos ABM (Antiballistic Missile) assinados com a então URSS. Os Estados Unidos vão reunir-se com os seus aliados e darão a devida resposta a estas provocações, disse.
Entretanto, os Presidentes de Cuba, Raul Castro, e da Venezuela, Hugo Chávez, manifestaram-se disponíveis para mediar as partes em confronto.
É claro, caro leitor, que estamos perante um cenário político de ficção. Mas estaremos mesmo? Qual seria a reacção da administração norte-americana se a Rússia, com pretextos tão falaciosos como os dos EUA em relação à Polónia e à República Checa, instalasse um sistema ABM em Cuba, ou no México, ou na Jamaica, ou...?
2. É curioso como certos historiadores, quando falam de si próprios, transformam a história em estória.
Em 5 de Dezembro de 2006, escrevi nesta mesma coluna: "Por ocasião da morte de Álvaro Cunhal, p. ex., assisti, estupefacto, a um [ex-comunista] a afirmar perante as câmaras da televisão que tinha abandonado o PCP em 1969 por divergências sobre a situação na Checoslováquia. Só que a realidade foi outra. Expulso em 1964 [de facto foi em 1965], cinco anos antes, por questões que nada tiveram a ver com
a ideologia."
Anos antes tinha sido apresentada outra versão da estória num tempo de antena eleitoral. Agora, a propósito de 1968 na Checoslováquia, li uma terceira versão. Está visto que os vindouros terão dificuldades em destrinçar onde está a verdade e a inverdade...
Fernando Rosas, porque é dele que se trata, tem todo o direito de não contar a história toda. Não tem é o direito de contar estórias. Até por respeito para consigo próprio.
Uma nota final e declaração de interesses: para mim é claro que a URSS foi dissolvida em 31 de Dezembro de 1991. Que em seu lugar nasceram vários países. E que a Rússia é um país capitalista que não aceita o seu afastamento da nova partilha internacional do mundo. Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
UNIÃO EUROPEIA: UMA NOVA UNIÃO SOVIÉTICA?




Antes, uma declaração de interesses - eu sou um europeísta convicto e até tenho sérias reservas à ratificação do tratado europeu por referendo porque entendo que os textos constitucionais devem ser aprovados nos parlamentos - imagine-se o que é uma maioria circunstancial em Portugal poder convocar um referendo constitucional. Contudo, a forma como a União Europeia se está a desenvolver, com burocratas desconhecidos a impor directivas europeias, levanta-me muitas apreensões. Disse-o ainda recentemente num debate eurpeu na Universidade de Verão com o deputado europeu Manuel dos Santos e, cerca de 8 anos com o embaixador Seixas da Costa - disse que a União Europeia se está a sovietizar - hoje, um cidadão europeu está como um cidadão soviético: votamos nas eleições europeias, mas sentimos que o nosso voto não será decisivo para alterar a política europeia, tal como os cidadãos soviéticos nada tinham a dizer sobre o que decidida o Soviete Supremo. Admiti então que as minhas declarações pudessem ser consideradas heresias. Este artigo que a seguir transcrevo, do escritor e dissidente soviético, Vladimir Bukovsky, através do blogue Esquerda Revolucionária, de Roberto Almada, que lhe foi enviado pelo seu camarada e meu amigo Rodrigo Trancoso, é um documento sobre o qual podemos ter divergências aqui e ali mas que nos coloca questões pertinentes e urgentes:
"É surpreendente que após ter enterrado um monstro, a URSS, se tenha construído outro semelhante: a União Europeia (UE). O que é, exactamente a União Europeia? Talvez fiquemos a sabê-lo examinando a sua versão soviética.
A URSS era governada por quinze pessoas não eleitas que se cooptavam mutuamente e não tinham que responder perante ninguém. A UE é governada por duas dúzias de pessoas que se reúnem à porta fechada e, também não têm que responder perante ninguém, sendo politicamente impunes.
Poderá dizer-se que a UE tem um Parlamento. A URSS também tinha uma espécie de Parlamento, o Soviete Supremo. Nós, (na URSS) aprovámos, sem discussão, as decisões do Politburo, como na prática acontece no Parlamento Europeu, em que o uso da palavra concedido a cada grupo está limitado, frequentemente, a um minuto por cada interveniente.
Na UE há centenas de milhares de eurocratas com vencimentos muito elevados, com prémios e privilégios enormes e, com imunidade judicial vitalícia, sendo apenas transferidos de um posto para outro, façam bem ou façam mal. Não é a URSS escarrada?
A URSS foi criada sob coacção, muitas vezes pela via da ocupação militar. No caso da Europa está a criar-se uma UE, não sob a força das armas, mas pelo constrangimento e pelo terror económicos.
Para poder continuar a existir, a URSS expandiu-se de forma crescente. Desde que deixou de crescer, começou a desabar. Suspeito que venha a acontecer o mesmo com a UE. Proclamou-se que o objectivo da URSS era criar uma nova entidade histórica: o Povo Soviético. Era necessário esquecer as nacionalidades, as tradições e os costumes. O mesmo acontece com a UE parece. A UE não quer que sejais ingleses ou franceses, pretende dar-vos uma nova identidade: ser «europeus», reprimindo os vosso sentimentos nacionais e, forçar-vos a viver numa comunidade multinacional. Setenta e três anos deste sistema na URSS acabaram em mais conflitos étnicos, como não aconteceu em nenhuma outra parte do mundo.
Um dos objectivos «grandiosos» da URSS era destruir os estados-nação. É exactamente isso que vemos na Europa, hoje. Bruxelas tem a intenção de fagocitar os estados-nação para que deixem de existir.
O sistema soviético era corrupto de alto a baixo. Acontece a mesma coisa na UE. Os procedimentos antidemocráticos que víamos na URSS florescem na UE. Os que se lhe opõem ou os denunciam são amordaçados ou punidos. Nada mudou. Na URSS tínhamos o «goulag». Creio que ele também existe na UE. Um goulag intelectual, designado por «politicamente correcto». Experimentai dizer o que pensais sobre questões como a raça e a sexualidade. Se as vossas opiniões não forem «boas», «politicamente correctas», sereis ostracizados. É o começo do «goulag». É o princípio da perda da vossa liberdade. Na URSS pensava-se que só um estado federal evitaria a guerra. Dizem-nos exactamente a mesma coisa na UE. Em resumo, é a mesma ideologia em ambos os sistemas. A UE é o velho modelo soviético vestido à moda ocidental. Mas, como a URSS, a UE traz consigo os germes da sua própria destruição. Desgraçadamente, quando ela desabar, porque irá desabar, deixará atrás de si um imenso descalabro e enormes problemas económicos e étnicos. O antigo sistema soviético era irreformável. Do mesmo modo, a UE também o é. (…)
Eu já vivi o vosso «futuro»…".
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
A ESTÉTICA AO SERVIÇO DOS TOTALITARISMOS

lido no Público
O triunfo da vontade da China
Nina L. Khrucheva - 20080806
A escolha de Albert Speer Jr. pelos dirigentes chineses não pode deixar de evocar os totalitarismos do século XXQuando tiver lugar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímicos de Pequim, os espectadores vão ser presenteados com um espectáculo meticulosamente coreografado e banhado no mais puro kitsch nacionalista.
É claro que a última coisa que a China deseja para os seus Jogos Olímpicos é vê-los associados a imagens que recordem as tropas de choque hitlerianas marchando a passo de ganso. Não esqueçamos que o nacionalismo oficial chinês proclama que o "progresso pacífico" do país evolui num idílio de "desenvolvimento harmonioso". Mas a verdade é que, tanto do ponto de vista estético como político, o paralelo não tem nada de rebuscado.
Na realidade, ao escolher Albert Speer Jr. - o filho do arquitecto favorito de Hitler e designer chefe dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 - para conceber o plano geral dos Jogos de Pequim, é o próprio Governo chinês que torna impossível esquecer a radical politização da estética que foi uma marca dos totalitarismos do século XX. Da mesma maneira que fizeram esses regimes, fascistas ou comunistas, também os líderes chineses tentaram transformar o espaço público e os eventos desportivos numa prova visível das suas competências e do seu direito a governar.
A encomenda que foi feita a Speer Jr. foi a de conceber o plano geral para o acesso ao complexo olímpico de Pequim. O seu conceito central consistiu na construção de uma imponente avenida que liga a Cidade Proibida ao Estádio Nacional, onde vai ter lugar a cerimónia de abertura. O plano do seu pai para "Germânia" - o nome escolhido por Hitler para a Berlim que planeava construir depois da Segunda Guerra Mundial - também se organizava em torno de um eixo central, igualmente poderoso.
Os dirigentes chineses vêem os Jogos Olímpicos como um palco para demonstrar ao mundo a extraordinária vitalidade do país que construíram nas últimas três décadas. E essa demonstração serve um objectivo interno ainda mais importante: legitimar a futura permanência do actual regime aos olhos dos chineses comuns. Dado este imperativo, uma linguagem arquitectónica que se caracteriza pela grandiloquência e pelo gigantismo parece quase inevitável.
É por tudo isto que não é uma surpresa que os Jogos de Pequim se pareçam com os orgulhosos Jogos que mereceram tanta atenção do Führer e seduziram as massas alemãs em 1936. Tal como os Jogos de Pequim, as olimpíadas de Berlim foram concebidas como um baile de debutantes, uma grande estreia. A máquina de propaganda nazi de Josef Goebbels foi utilizada a fundo. As imagens de atletas - utilizadas de uma forma brilhante no aclamado documentário de Leni Riefenstahl, Olímpia - pareciam criar um laço entre os nazis e os antigos gregos e confirmar assim o mito nazi segundo o qual os alemães e a civilização alemã eram os verdadeiros herdeiros da cultura "ariana" da Antiguidade clássica.
Enquanto desenhava os planos para os Jogos de Pequim, Speer Jr., um reputado arquitecto e urbanista, também pensou, tal como o seu pai, criar uma metrópole futurista global. Mas é claro que a linguagem que usou para vender a sua ideia aos chineses foi muito diferente da que o seu pai usou para apresentar os seus planos a Hitler. Em vez de sublinhar a magnificência dos seus projectos, o jovem Speer preferiu insistir no seu carácter ecológico. A ideia era transportar a cidade de Pequim, com a sua história velha de 2000 anos, para a hipermodernidade - enquanto a Berlim que o seu pai tinha planeado em 1936 era "simplesmente megalómana".
É evidente que os filhos não devem ser julgados pelos pecados dos pais. Mas, neste caso, quando o filho usa elementos essenciais que constituíam os princípios arquitectónicos do seu pai e serve um regime que tenta usar os Jogos para as mesmas razões que animaram Hitler, não estará ele conscientemente a reflectir esses pecados?
Os regimes totalitários - os nazis, os soviéticos em 1980 e agora os chineses - querem ser anfitriões dos Jogos Olímpicos para mostrar ao mundo um sinal da sua superioridade. A China acredita que encontrou um modelo próprio para desenvolver e modernizar o país e os seus dirigentes olham para os Jogos da mesma maneira que os nazis e Leonid Brejnev olharam: como uma maneira de "vender" o seu modelo a uma audiência global.
É evidente que os chineses mostraram ser politicamente insensíveis ao escolher um arquitecto cujo nome tem tais conotações políticas. E é possível que o nome de Speer não tenha pesado da sua escolha. O que os chineses queriam era encenar uns Jogos que pusesse em evidência uma certa imagem de si mesmos e Speer Jr., inspirando-se na arquitectura do poder que o seu pai dominava, pôde apresentar a solução desejada.
A concretização da visão olímpica de Speer Jr. e da dos seus patronos assinala o fim de um bem-vindo interlúdio. Durante os anos que se seguiram ao fim da guerra fria, a política esteve afastada dos Jogos. Uma medalha de ouro representava as qualidades desportivas e a dedicação dos atletas individuais e não os supostos méritos do sistema político que os produzia.
Mas agora regressámos a uma estética de mesmerismo político, que se reflecte na declaração do Governo do país anfitrião, segundo a qual a China deverá ganhar mais medalhas de ouro do que qualquer outro país até aqui.
Quando a tocha olímpica acabar o seu percurso - que foi aliás uma ideia dos nazis, usada pela primeira vez nos jogos de 1936 - ao longo da avenida do poder imaginada por Speer Jr., o mundo poderá de novo testemunhar o triunfo da vontade totalitária.
Nina Khrucheva é professora de Relações Internacionais na New School University, em Nova Iorque, e é senior fellow do World Policy Institute de Nova Iorque. É autora do livro Imagining Nabokov: Russia between Art and Politics. © Project Syndicate, 2008 (www.project-syndicate.org)
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terça-feira, 5 de agosto de 2008
A crise internacional e a guerra surda EUA-UE, Costa Martins

Lido no PÚBLICO
Bush pode promover um ataque ao Irão para dificultar o acesso da UE ao petróleo do Médio OrienteAquando da invasão do Iraque pelos EUA escrevi um artigo, publicado neste jornal, onde referi que o verdadeiro móbil dessa invasão decorria, essencialmente, da guerra surda económica-financeira dos EUA com a União Europeia (UE). Os EUA consideraram a UE como o seu principal adversário no plano económico/financeiro e procuraram impedir que ela crescesse e se consolidasse em termos de vir a destroná-los na liderança da economia mundial. O facto de a UE integrar vários países que são seus aliados político-
-militares confere delicadeza a essa guerra surda.
Os EUA definiram como estratégia o controlo das grandes plataformas petrolíferas internacionais para, através do controlo do preço do petróleo, condicionarem a competitividade dos produtos da UE face aos seus e travarem o desenvolvimento da China e da Índia, que começava a despertar com visibilidade.
Nessa estratégia consertou-se em triunvirato com a Inglaterra e a Austrália. Mas a invasão do Iraque revelou-se um desastre. Os EUA não conseguiram a ocupação das grandes plataformas petrolíferas mundiais nem o controlo do petróleo, o que os impossibilitou de impor aos outros países preços mais gravosos para o importante factor de produção que é o petróleo. Meteram-se num atoleiro político-militar do qual não sabem como sair e cujos custos tem empurrado a sua economia para a exaustão. Os abaixamentos das taxas de juros a que a Reserva Federal tem recorrido para tentar estimular o arranque da economia não só não têm produzido os efeitos pretendidos, como têm sido aproveitados pela UE para tirar vantagens no campo financeiro, através da política seguida pelo Banco Central Europeu (BCE), que tem procedido a constantes aumentos das suas taxas de juros - não por causa da inflação, como é dito, mas sim visando aumentar o diferencial entre as taxas dos EUA e as da UE, fomentando, assim, a migração dos grandes capitais internacionais, em favor da UE, com o consequente agravamento da situação financeira americana. A delicada situação dos EUA, nomeadamente económica e financeira, agravada pela fuga de capitais, tem levado à constante desvalorização do dólar que, por ser ainda a moeda de referência nos negócios do petróleo, tem contribuído para a constante subida do preço deste produto, dificultando, ainda mais, o arranque da economia dos EUA, que se apresentam cada vez mais fragilizados para continuar a desempenhar a função de motor da economia mundial.
Por outro lado, a política de aumento das taxas de juros seguida pelo BCE na guerra surda entre a UE e os EUA tem contribuído para a valorização do euro e para a sua afirmação como moeda forte internacional, ameaçando destronar o dólar.
As constantes valorizações do euro e desvalorizações do dólar, conjugadas com o facto de o dólar ser ainda a moeda de referência nos negócios, têm levado a que, em termos comparativos, a UE tivesse passado a comprar o petróleo a preços bastante mais baixos que os EUA - ou seja, na estratégia de Bush, virou-se o feitiço contra o feiticeiro.
Agora que a UE já marcou a sua posição e o euro já se afirmou como a moeda forte na cena internacional, o BCE, visando o relançamento da economia e o aumento das exportações, irá, certamente, começar a baixar as taxas de juros, ainda que cuidadosamente e procurando mantê-las superiores às dos EUA, embora com um diferencial mais reduzido.
A saída da crise, designada internacional, mas que se circunscreve essencialmente aos EUA e à UE, apresenta-se mais difícil na medida em que a UE não se encontra ainda em condições de assumir o papel de motor da economia mundial - situação que se complicou com o "não" da Irlanda ao Tratado de Lisboa - enquanto que os EUA se apresentam demasiado fragilizados para continuarem a sê-lo.
Bush, em desespero, quer lançar mão do petróleo existente nas jazidas estratégicas americanas. Esperemos que a recente e inesperada abertura da sua Administração ao diálogo directo com o Irão não se destine a usar uma eventual recusa do Irão em cumprir inteiramente as condições que lhe forem apresentadas como justificação para um ataque àquele país, a levar a cabo por Forças Armadas dos EUA ou por outras interpostas forças, o que se afigura mais provável.
É que, tendo a estratégia do controlo do preço do petróleo inicialmente congeminada tido consequências desastrosas, Bush, se tiver o abastecimento de petróleo aos EUA garantido directamente pela exploração das jazidas americanas, pode, para culminar a sua brilhante actuação, promover um ataque ao Irão em forma de despedida. Isso levaria ao incendiar do Médio Oriente e à interdição das rotas marítimas que lhe dão acesso, nomeadamente através do estreito de Ormuz, impossibilitando o abastecimento de petróleo à UE e a outros países não produtores, enquanto que, paralelamente, os EUA teriam garantida a satisfação das suas necessidades com o seu próprio petróleo e ao preço do custo da exploração.
A crise internacional está a mostrar à Europa que o bom senso e realismo político impõem um estreitamento de cooperação, no respeito mútuo, entre os países da bacia do Mediterrâneo, que o Presidente francês, em nome da UE, parece estar a pretender pôr em prática, e que será muito útil para atenuar e esbater eventuais tensões de carácter cultural e fomentar laços de amizade entre os vários povos, e que será a base de uma desejável convivência pacífica. Obama, a avaliar pelo seu recente discurso realista, em Berlim, parece não querer "perder o comboio" da Europa. Coronel-Piloto-Aviador. Ex-membro da Comissão Coordenadora do MFA, do Conselho de Estado, do Conselho da Revolução e do Conselho dos Vinte. Ex-Ministro do Trabalho do II ,III, IV e V Governos Provisórios
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sexta-feira, 27 de junho de 2008
segunda-feira, 2 de junho de 2008
O desafio da China


1. O desafio chinês tem um duplo ou triplo sentido: o desafio que a China coloca ao mundo e o desafio que o mundo coloca à China e que a China coloca a si própria.
O desafio que a China coloca ao mundo é o facto de a China desejar vir a ser uma superpotência emergente. A China tem as condições de todas conhecidas para o ser. Ela já é naturalmente a maior potência demográfica à face da terra e isso torna-a poderosa. Por outro lado, não há democracia sem disputa e a nível mundial a queda da União Soviética deixou o mundo entregue aos caprichos de uma superpotência, sem opositor. Em termos democráticos, pode dizer-se que a falta de alternativa a nível mundial equivale a uma situação de ausência de “democracia global”. A China pode muito bem desempenhar esse papel, a que outros parceiros irão juntar-se mais tarde ou mais cedo, seja pelo seu poderio económico, seja pelo seu peso demográfico, seja pelo sua importância política, factores que tendem a juntar-se necessariamente. A Índia, o Brasil, a União Europeia, são interlocutores válidos à escala mundial.
2. A força de uma potência a nível global está assente num factor incontornável e determinante, que decidiu sempre, em última análise os grandes conflitos: a força moral dessa potência. Esse factor foi determinante na desenlace das duas grandes guerras e no fim da guerra fria, cuja sorte ainda não está definitivamente adquirida, visto que a queda da União Soviética fez emergir uma corrente belicista nos EUA que desbaratou imoralmente a vitória na guerra fria.
A China precisa assim de uma base moral para se impor no contexto internacional e essa base moral só pode ser adquirida, primacialmente, internamente. Ninguém, em política, pode passar ao patamar seguinte, se antes não houver conquistado a força moral no patamar precedente.
3. Entretanto, do ponto de vista político, o regime chinês continua a assentar num partido único. Como evoluir sem rupturas para um sistema democrático a partir do actual poder é o grande desafio que a China coloca a si mesma, se quiser vencer o desafio que coloca ao Mundo e o Mundo lhe coloca.
3.1. A melhor forma de o fazer é potenciar democraticamente a luta pelo poder que se desenrola no seio do Partido entre dois grupos antagónicos, com uma visão diametralmente oposta da evolução da China, desde que esses dois grupos aceitem disputar de uma forma clara, transparente, primeiro, e finalmente democrática aquilo que tem sido uma luta surda nos esconsos do aparelho do partido.
3.2 Deste modo, o chamado"grupo de Xangai", que tem como figura tutelar o ex-secretário-geral, Jiang Zemin, que apoia incondicionalmente a actual transformação da China em economia de mercado, fortemente assente nas exportações, mas que tem assumido os aspectos mais acentuados do "capitalismo selvagem", assumiria, numa visão simples, o papel da ala (neo)liberal do regime ou conservadora, numa visão clássica direita/esquerda – uma espécie de Partido Republicano à oriental.
3.3. Ao invés, o chamado “grupo de Hu”, poderia, inversamente representar a ala socialista – um futuro Partido Democrático. Este grupo tem como núcleo da sua actuação a denúncia da corrupção e um conjunto de medidas sociais que corrijam os aspectos mais gravosos resultantes da abertura económica da China ao capitalismo, que ali tem assumido o seu lado mais negro, aproveitando-se do facto de a China ser uma sistema ditatorial para mostrar a sua verdadeira face, quase sempre oculta nos países democráticos, até hoje.
4. Esta evolução é inevitável a longo prazo. Mesmo que seja reconhecido que a pressão para a existência de um regime democrático ao modo ocidental na China não tenha atingido um nível adequado à transformação do regime, há, contudo, cada vez mais, uma opinião pública exigente, a que a Internet, mesmo com as suas limitações impostas pelo regime, veio dar voz. E os dirigentes chineses sabem que o efeito da existência de uma liberdade de crítica obrigará à transparência no exercício do poder que só pode ter como corolário um regime democrático.
As transformações económicas e a formação de uma classe média de 200 a 300 milhões de chineses com tendência a alargar-se são a base social e política necessária a esse regime democrático que, aliás, ultimamente tem sido descurada na Europa – a ligação umbilical entre a existência de uma classe média e a existência de uma democracia plural.
5. Finalmente, a transformação da China numa democracia será a condição essencial para a vitória de uma globalização democrática, que ponha fim ao “tsunami” social que a actual globalização neoliberal tem provocado.
A visão é simplista mas é a melhor forma de resolver questões complexas: partir de uma equação a duas variáveis, no máximo, e não mais.
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